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Ó filha, temos que ser umas para as outras!

 

Eu não fui o culpado, foram os outros meninos que disseram para eu me alambazar a estas fatias bem gulosas. Parece conversa de putos, mas foi assim que reagiu António Mexia quando foi confrontado com o facto de se abotoar a mais de 3 milhões por ter dirigido uma empresa que, apesar de ser semi-privada, gere um bem público, a energia. Ou pensam que a matéria-prima dele é como uma fábrica de bolos, em que tudo depende da gestão e da gente que põe a mão na massa? Não, a sua farinha vem de recursos naturais, de todo nós, e de investimentos gigantescos pagos por todos nós.

O homenzinho justificou o seu ganho com 2 ordens de razões:

  • Superou os objectivos;
  • Decisão dos accionistas

Mas que se traduzem em 2 falácias. Senão vejamos:

Que objectivos são estes que, quando ultrapassados, dão tão bom proveito? Presumo que obteve grandes níveis de eficácia energética e financeira, o que permitiu obter um bom saldo final no encerramento de contas. Ora aqui é que a porca torce o rabo, já não basta os objectivos serem definidos pelos próprios, quando devia ser uma coisa estratégica, a nível político – a energia é um bem escasso que não devia andar por aí nas mãos de decisões financeiras à la carte, – como temos critérios lucrativos que deviam ser repensados. Sou um grande defensor do mercado, mas quando chegamos aos recursos, que vão acabar um dia, alto e para o baile. O objectivo de uma empresa energética como esta, devia ser diminuir os consumos e não aumentar a facturação. Devia haver toda uma política, efectivamente real e não de fachada, para a diminuição do consumo.

Pagamos a electricidade mais cara da Europa. Ok, não temos recursos e a coisa tem que ser mesmo assim. Mas espera aí, então se no final há milhões a rodo para distribuir não significa que os resultados financeiros foram muito altos, logo a facturação foi bem lucrativa? Então porque não diminuir ao preço e dinamizar a economia, as empresas com custos mais baixos a serem mais competitivas e os particulares a aforrarem mais na factura das lamparinas modernas para aumentarem o consumo noutros produtos, lazer, por exemplo, ou fazerem investimentos?! Não devia passar por aí a política de objectivos, em lugar de andarem a dizer que, face ao mau tempo, teriam que aumentar o preço. Não é isto vergonhoso?

Até acho que, realmente, quem gere bem deve ser remunerado por isso, mas c’um raio, temos que ver em que lugar é que estamos, o homem não é director-geral da General Motors. Será que ninguém se enxerga para ver que o tamanho do mercado português não é compatível com este tipo de prémios, que mesmo em países ricos e grandes só existem em empresas que depois dão com os burros na água, como vimos em 2008?! Imoral? Não, é saquear o país numa espécie de robin wood invertido. Tenho uma dúvida, será que o Belmiro paga tão bem assim aos seus administradores quando eles têm bons resultados? Dúvido.

A outra falácia é dizer que os accionistas assim o decidiram. Accionistas ou os Administradores dos mesmos, que é como quem diz, mais do mesmo? O Estado, todos nós, tem por lá 25%, alguém foi chamado a dizer alguma coisa? Não me parece. Quem lá está decidiu assim porque o próprio também se pode alambazar.

Parece que já esquecemos que uma das razões da crise em 2008 foi o desbarato de chorudos prémios em empresas americanas, e não só, que ajudaram à descapitalização das mesmas. Mas tudo bem, foi  decisão dos accionistas!

Pura ilusão, os accionistas decidem muito pouco, quem define a forma como vão rachar o bolo é a Távola Rendonda dos administradores que, qual casta iluminada, faz descer o Excalibur, em primeiro lugar, para as mãos deles. Apoiam-se uns aos outros, porque eles próprios são beneficiários, são juízes de um jogo em que participam.

É por isto tudo, que no meio deste putedo todo, lembro-me sempre do remate de conversa entre meretrizes: Ó filha, temos que ser umas para as outras!

Nota: Foi com algum humor, para evitar outros estados piores, que assisti às virgens ofendidas a comentar que era imoral, as mesmas que comeram na gamela da desbunda total do Estado.

A grande meretriz que o pariu – Um novo programa de entretenimento

Não aguento mais aquela puta, qualquer dia vou-me a ela e ao cabrão do marido e parto-lhe as trombas.

Não sei se por estas palavras, mas quem de nós nunca soltou ao telefone uma verborreia grosseira sobre alguém,  por estarmos num momento em que já nos passámos dos carretos.

O que é que isso interessa? Nada. Mas parece que nos últimos tempos anda a interessar muito.

Alguém gostaria de ver isto publicado nalgum sítio? Ninguém, a menos que se cultive um certo gosto de vivência tipo hiena.

Como se sentiria, apenas por exemplo, uma jornalista se visse publicado a forma como a tratam ao telefone, só porque não gostam do trabalho dela? Gostaria o virtuoso director de um jornal de ler os vocábulos pouco agradáveis com tratam a sua virtuosa esposa, ou mesmo a ele, quando as pessoas, na sua intimidade, estão com os azeites? Penso que não.

O Sol, na prossecução histérica de herdar o ceptro do Independente, traz na sua última edição, com destaque em capa, a publicação de uma escuta onde, membros próximos do antigo governo, tratam uma ex-secretária de estado com uns certos mimos pouco abonatórios. Qual o interesse público daquilo? Nenhum, a não ser ficarmos a saber que temos elites políticas, e seus satélites, que falam como se fossem clientes de uma qualquer tasca em dia de jogo na Sport TV. No entanto, penso que para a protagonista e destinatária dos mimos não terá sido nada bonito ter que levar, bem nas fuças, com todo aquele despautério verbal sobre si. Não somos obrigados a saber o que os outros pensam de nós quando eles opinam no privado.

O que é giro, é que a coisa foi publicada num jornal onde têm o pudor de escrever grosserias, todo o léxico das suas edições sai sempre de uma qualquer biblioteca da Ordem das Purificadas. Este texto, por exemplo, se fosse publicado na sua plataforma de blogues teria, logo no seu início, **** por todo o lado a substituir os pequenos afagos com que brindei as personagens imaginárias.

Interessante mundo este de um jornalismo onde a alarvidade passou a ser notícia e se faz dela própria um estilo. Já agora, deixo como sugestão a criação de um reality show, onde se apresentasse tudo o que andamos a dizer ao telefone uns dos outros, especialmente nas redacções antes de fecho. Em nome do supremo interesse público acho que era importante a sua existência, afinal o mundo ficaria mais sincero e menos hipócrita ao saber a forma verbal como as pessoas aliviam a figadeira. Porque não? Se o conceito de intimidade é algo que já se rasgou há muito vamos  todos já para a desbunda total. Tudo nu e a lutar na lama. Já comprei bilhetes.

Isto anda tudo…

Os saudosos contemporâneos, num sukete sobre os concursos de talentos para crianças, tinham uma cena em que uma mãe, depois do puto dizer uma asneira simples, lhe dava um caldinho e dizia “isto, a culpa é do governo, que anda todo fodido”.

Acidentalmente, ou não, construíram uma das melhores metáforas sobre os tempos que vivemos. O governo, este ou anterior, é capaz de ter feito asneira a propósito de muita coisa, mas a forma como tratamos isso consegue ser ainda pior e revelar que somos todos farinha do mesmo saco de um pão amassado de podre.

O governo, supostamente, quis meter-se na comunicação social, para criar um espécie de big brother saloio, o que, diga-se de passagem, seria a maior das idiotices, porque os cães de fila que criaria seriam os mesmos que lhe iriam fazer a folha quando já não fossem poder, mas pronto, a cabecinha não dá para mais. E o que fez essa mesma comunicação social? Criou um polvo ainda maior em que expõem escutas sobre pessoas que nem arguidos são, publica o que foi mandado destruir pela figura mais importante da justiça em Portugal e, na maior da cretinice lusa, trancou-se na despensa para não receber o emissário judicial que trazia uma providência cautelar, chegando ao ponto de mandar o segurança para tratar do assunto, como se fossem criminosos de segunda, que fogem pelas traseiras para os campos de milho quando pressentem que a GNR está na entrada da frente para os notificar de alguma trafulhice na aldeia. No entanto, escrevem grandes artigos em nome de uma ética. Salazar deixou-nos mesmo uma pesada herança, a um de um saloismo boçal que cai em qualquer pano, mesmos naquele mais urbanos chique, douto ou de alta linhagem. 

Afinal, é mesmo como diziam os Contemporâneos, as culpas até devem ser sempre do Governo, mas isto, a andar fodido, não é só por eles mas por todos nós, que nos comportamos com um nível ainda mais mesquinho de quem criticamos. Triste fado ou nosso.

O tempo é deprimente, as gentes são deprimentes, o ideal, seria mesmo uma nave espacial para nos levar daqui para bem longe, para o universo sideral. Vou pintar-me de azul, de vergonha.

Haiti – A Pornografia da Desgraça numa bavaroise não muito fria

Se o poeta chega a fingir que é dor a dor que deveras sente, nós, ao sermos bombardeados com a imagem de tanto sofrimento, começamos a não sentir dor, alguns até sentirão prazer, da dor que outros verdadeiramente sentem.

Grito II

Sempre que há uma catástrofe os jornalistas correm em massa para nos virem mostrar, no conforto do nosso lar, a desgraça que por lá se avista, naqueles confins do mundo, de gente sempre tão pobrezinha, de pele escura, coitadinhos, se pudesse até adoptava um, é um dó de alma ao ver aquela imagens, até me sinto mal, nem a comida passa para baixo, ó Etelvina passa-me aí as natas que o bife está um pouco seco, já agora tira a bavaroise do frigorifico para não ficar muito fria, que me faz mal à garganta.

E no meio do nosso repasto de abundância vai desfilando aquela autêntica pornografia da desgraça, em ecrãs LCD, ora mostra bem lá bem a cara esfacelada 30 vezes, ai que horror, até nos tornar perfeitamente anestesiados à dor alheia, como se aquelas imagens não divergissem muito das outras, também horríveis, que por vezes vimos quando o puto se põe a jogar aqueles jogos em esquartejam meio mundo, esta geração está perdida, são uns insensíveis, no meio tempo não era nada disto, muda-me de canal que antes prefiro ver a Leonor de Almeida não sei quantas a ser impedida de viver um grande amor, o gajo é mesmo velhaco!

Se somarmos esta abundância de dor, que nos vai tornando insensíveis, ao facto de muita gente em nome da sua tranquilidade diária deixar de ver noticias para não se incomodar, sempre é preferível enxergar um bom par de sapatos numa montra do que as moscas numa perna ferida, temos aqui o princípio de uma coisa muita perigosa, o acordámos um dia e não reconhecermos a sociedade que temos e que criámos, não nos podemos esquecer que foi assim que começaram todos os fascismos, com um silêncio profundo de alienação perante as transformações que se fizeram, bandidos como puderam fazer uma coisa destas?!

Os jornalistas têm um papel muito importante, o de acordar o mundo perante as coisas que se vivem, só que o excesso de cafeína que põem nas imagens de horror a toda a hora acaba por nos adormecer a todos, o que, na boa da verdade, é muito mau, mesmo muito mau. As pessoas quase que já pedem um tornado nas Maldivas para mudar de paisagem.

Mas se há muitas espécies de adormecimento, parece-me que a fé no Vaticano é uma delas. Muita oração, muita força em Deus, mas nunca os vemos abrir os cordões à bolsa em nome da ajuda material que as pessoas bem precisam. Deixe-se isso para a sociedade civil e os Estados mesmo estados, que, por muito pobres que sejam, sempre arranjam uns tostões.

Está na altura de acordámos todos, os jornalistas, que acabam por fazer um trabalho contraproducente ao apagar as luzes quando nos deviam iluminar, nós, que temos que insistir e ir abrindo os olhos perante as imagens que nos toldam a visão, mesmo que doam, e, já agora, os homens da fé, que deixem Deus a fazer o seu trabalho, ou a desfazê-lo pois a coisa não anda a sair lá muito bem, e vendam umas pratas que não lhes fazem falta. Afinal o cálice de Cristo até era de madeira.