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Isto anda tudo…

Os saudosos contemporâneos, num sukete sobre os concursos de talentos para crianças, tinham uma cena em que uma mãe, depois do puto dizer uma asneira simples, lhe dava um caldinho e dizia “isto, a culpa é do governo, que anda todo fodido”.

Acidentalmente, ou não, construíram uma das melhores metáforas sobre os tempos que vivemos. O governo, este ou anterior, é capaz de ter feito asneira a propósito de muita coisa, mas a forma como tratamos isso consegue ser ainda pior e revelar que somos todos farinha do mesmo saco de um pão amassado de podre.

O governo, supostamente, quis meter-se na comunicação social, para criar um espécie de big brother saloio, o que, diga-se de passagem, seria a maior das idiotices, porque os cães de fila que criaria seriam os mesmos que lhe iriam fazer a folha quando já não fossem poder, mas pronto, a cabecinha não dá para mais. E o que fez essa mesma comunicação social? Criou um polvo ainda maior em que expõem escutas sobre pessoas que nem arguidos são, publica o que foi mandado destruir pela figura mais importante da justiça em Portugal e, na maior da cretinice lusa, trancou-se na despensa para não receber o emissário judicial que trazia uma providência cautelar, chegando ao ponto de mandar o segurança para tratar do assunto, como se fossem criminosos de segunda, que fogem pelas traseiras para os campos de milho quando pressentem que a GNR está na entrada da frente para os notificar de alguma trafulhice na aldeia. No entanto, escrevem grandes artigos em nome de uma ética. Salazar deixou-nos mesmo uma pesada herança, a um de um saloismo boçal que cai em qualquer pano, mesmos naquele mais urbanos chique, douto ou de alta linhagem. 

Afinal, é mesmo como diziam os Contemporâneos, as culpas até devem ser sempre do Governo, mas isto, a andar fodido, não é só por eles mas por todos nós, que nos comportamos com um nível ainda mais mesquinho de quem criticamos. Triste fado ou nosso.

O tempo é deprimente, as gentes são deprimentes, o ideal, seria mesmo uma nave espacial para nos levar daqui para bem longe, para o universo sideral. Vou pintar-me de azul, de vergonha.