Se o poeta chega a fingir que é dor a dor que deveras sente, nós, ao sermos bombardeados com a imagem de tanto sofrimento, começamos a não sentir dor, alguns até sentirão prazer, da dor que outros verdadeiramente sentem.
Sempre que há uma catástrofe os jornalistas correm em massa para nos virem mostrar, no conforto do nosso lar, a desgraça que por lá se avista, naqueles confins do mundo, de gente sempre tão pobrezinha, de pele escura, coitadinhos, se pudesse até adoptava um, é um dó de alma ao ver aquela imagens, até me sinto mal, nem a comida passa para baixo, ó Etelvina passa-me aí as natas que o bife está um pouco seco, já agora tira a bavaroise do frigorifico para não ficar muito fria, que me faz mal à garganta.
E no meio do nosso repasto de abundância vai desfilando aquela autêntica pornografia da desgraça, em ecrãs LCD, ora mostra bem lá bem a cara esfacelada 30 vezes, ai que horror, até nos tornar perfeitamente anestesiados à dor alheia, como se aquelas imagens não divergissem muito das outras, também horríveis, que por vezes vimos quando o puto se põe a jogar aqueles jogos em esquartejam meio mundo, esta geração está perdida, são uns insensíveis, no meio tempo não era nada disto, muda-me de canal que antes prefiro ver a Leonor de Almeida não sei quantas a ser impedida de viver um grande amor, o gajo é mesmo velhaco!
Se somarmos esta abundância de dor, que nos vai tornando insensíveis, ao facto de muita gente em nome da sua tranquilidade diária deixar de ver noticias para não se incomodar, sempre é preferível enxergar um bom par de sapatos numa montra do que as moscas numa perna ferida, temos aqui o princípio de uma coisa muita perigosa, o acordámos um dia e não reconhecermos a sociedade que temos e que criámos, não nos podemos esquecer que foi assim que começaram todos os fascismos, com um silêncio profundo de alienação perante as transformações que se fizeram, bandidos como puderam fazer uma coisa destas?!
Os jornalistas têm um papel muito importante, o de acordar o mundo perante as coisas que se vivem, só que o excesso de cafeína que põem nas imagens de horror a toda a hora acaba por nos adormecer a todos, o que, na boa da verdade, é muito mau, mesmo muito mau. As pessoas quase que já pedem um tornado nas Maldivas para mudar de paisagem.
Mas se há muitas espécies de adormecimento, parece-me que a fé no Vaticano é uma delas. Muita oração, muita força em Deus, mas nunca os vemos abrir os cordões à bolsa em nome da ajuda material que as pessoas bem precisam. Deixe-se isso para a sociedade civil e os Estados mesmo estados, que, por muito pobres que sejam, sempre arranjam uns tostões.
Está na altura de acordámos todos, os jornalistas, que acabam por fazer um trabalho contraproducente ao apagar as luzes quando nos deviam iluminar, nós, que temos que insistir e ir abrindo os olhos perante as imagens que nos toldam a visão, mesmo que doam, e, já agora, os homens da fé, que deixem Deus a fazer o seu trabalho, ou a desfazê-lo pois a coisa não anda a sair lá muito bem, e vendam umas pratas que não lhes fazem falta. Afinal o cálice de Cristo até era de madeira.