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A grande meretriz que o pariu – Um novo programa de entretenimento

Não aguento mais aquela puta, qualquer dia vou-me a ela e ao cabrão do marido e parto-lhe as trombas.

Não sei se por estas palavras, mas quem de nós nunca soltou ao telefone uma verborreia grosseira sobre alguém,  por estarmos num momento em que já nos passámos dos carretos.

O que é que isso interessa? Nada. Mas parece que nos últimos tempos anda a interessar muito.

Alguém gostaria de ver isto publicado nalgum sítio? Ninguém, a menos que se cultive um certo gosto de vivência tipo hiena.

Como se sentiria, apenas por exemplo, uma jornalista se visse publicado a forma como a tratam ao telefone, só porque não gostam do trabalho dela? Gostaria o virtuoso director de um jornal de ler os vocábulos pouco agradáveis com tratam a sua virtuosa esposa, ou mesmo a ele, quando as pessoas, na sua intimidade, estão com os azeites? Penso que não.

O Sol, na prossecução histérica de herdar o ceptro do Independente, traz na sua última edição, com destaque em capa, a publicação de uma escuta onde, membros próximos do antigo governo, tratam uma ex-secretária de estado com uns certos mimos pouco abonatórios. Qual o interesse público daquilo? Nenhum, a não ser ficarmos a saber que temos elites políticas, e seus satélites, que falam como se fossem clientes de uma qualquer tasca em dia de jogo na Sport TV. No entanto, penso que para a protagonista e destinatária dos mimos não terá sido nada bonito ter que levar, bem nas fuças, com todo aquele despautério verbal sobre si. Não somos obrigados a saber o que os outros pensam de nós quando eles opinam no privado.

O que é giro, é que a coisa foi publicada num jornal onde têm o pudor de escrever grosserias, todo o léxico das suas edições sai sempre de uma qualquer biblioteca da Ordem das Purificadas. Este texto, por exemplo, se fosse publicado na sua plataforma de blogues teria, logo no seu início, **** por todo o lado a substituir os pequenos afagos com que brindei as personagens imaginárias.

Interessante mundo este de um jornalismo onde a alarvidade passou a ser notícia e se faz dela própria um estilo. Já agora, deixo como sugestão a criação de um reality show, onde se apresentasse tudo o que andamos a dizer ao telefone uns dos outros, especialmente nas redacções antes de fecho. Em nome do supremo interesse público acho que era importante a sua existência, afinal o mundo ficaria mais sincero e menos hipócrita ao saber a forma verbal como as pessoas aliviam a figadeira. Porque não? Se o conceito de intimidade é algo que já se rasgou há muito vamos  todos já para a desbunda total. Tudo nu e a lutar na lama. Já comprei bilhetes.

Haiti – A Pornografia da Desgraça numa bavaroise não muito fria

Se o poeta chega a fingir que é dor a dor que deveras sente, nós, ao sermos bombardeados com a imagem de tanto sofrimento, começamos a não sentir dor, alguns até sentirão prazer, da dor que outros verdadeiramente sentem.

Grito II

Sempre que há uma catástrofe os jornalistas correm em massa para nos virem mostrar, no conforto do nosso lar, a desgraça que por lá se avista, naqueles confins do mundo, de gente sempre tão pobrezinha, de pele escura, coitadinhos, se pudesse até adoptava um, é um dó de alma ao ver aquela imagens, até me sinto mal, nem a comida passa para baixo, ó Etelvina passa-me aí as natas que o bife está um pouco seco, já agora tira a bavaroise do frigorifico para não ficar muito fria, que me faz mal à garganta.

E no meio do nosso repasto de abundância vai desfilando aquela autêntica pornografia da desgraça, em ecrãs LCD, ora mostra bem lá bem a cara esfacelada 30 vezes, ai que horror, até nos tornar perfeitamente anestesiados à dor alheia, como se aquelas imagens não divergissem muito das outras, também horríveis, que por vezes vimos quando o puto se põe a jogar aqueles jogos em esquartejam meio mundo, esta geração está perdida, são uns insensíveis, no meio tempo não era nada disto, muda-me de canal que antes prefiro ver a Leonor de Almeida não sei quantas a ser impedida de viver um grande amor, o gajo é mesmo velhaco!

Se somarmos esta abundância de dor, que nos vai tornando insensíveis, ao facto de muita gente em nome da sua tranquilidade diária deixar de ver noticias para não se incomodar, sempre é preferível enxergar um bom par de sapatos numa montra do que as moscas numa perna ferida, temos aqui o princípio de uma coisa muita perigosa, o acordámos um dia e não reconhecermos a sociedade que temos e que criámos, não nos podemos esquecer que foi assim que começaram todos os fascismos, com um silêncio profundo de alienação perante as transformações que se fizeram, bandidos como puderam fazer uma coisa destas?!

Os jornalistas têm um papel muito importante, o de acordar o mundo perante as coisas que se vivem, só que o excesso de cafeína que põem nas imagens de horror a toda a hora acaba por nos adormecer a todos, o que, na boa da verdade, é muito mau, mesmo muito mau. As pessoas quase que já pedem um tornado nas Maldivas para mudar de paisagem.

Mas se há muitas espécies de adormecimento, parece-me que a fé no Vaticano é uma delas. Muita oração, muita força em Deus, mas nunca os vemos abrir os cordões à bolsa em nome da ajuda material que as pessoas bem precisam. Deixe-se isso para a sociedade civil e os Estados mesmo estados, que, por muito pobres que sejam, sempre arranjam uns tostões.

Está na altura de acordámos todos, os jornalistas, que acabam por fazer um trabalho contraproducente ao apagar as luzes quando nos deviam iluminar, nós, que temos que insistir e ir abrindo os olhos perante as imagens que nos toldam a visão, mesmo que doam, e, já agora, os homens da fé, que deixem Deus a fazer o seu trabalho, ou a desfazê-lo pois a coisa não anda a sair lá muito bem, e vendam umas pratas que não lhes fazem falta. Afinal o cálice de Cristo até era de madeira.